terça-feira, 14 de abril de 2009

Casa das Cenas lança CD-DVD de Helena da Paixão em Sintra


Sintra, 7 de Abril de 2009 – Moura-Lena, Folk Regional é o nome do primeiro CD-DVD da intérprete popular Helena da Paixão, com direcção musical de Jorge Pitacas e edição de imagem de Manuel Ribeiro. A ideia e concepção é de José Sabugo e a produção é da Casa das Cenas – Educação pela Arte.

O CD-DVD foi apresentado ao público, no passado dia 21 de Março, na emblemática Sociedade União Sintrense, em pleno centro histórico de Sintra, com a actuação da intérprete durante o intervalo do tradicional Baile das Camélias.

CD DVD MOURA – LENA
Com poemas da autoria da intérprete e arranjos, adaptação ao texto poético e composição musical de Jorge Pitacas, este projecto é uma simples abordagem criativa à música folk regional portuguesa, onde coabitam em harmonia sonoridades acústicas e outras mais electrónicas.

Destaque para três letras das sete faixas musicais, que evocam a singularidade da região saloia de Sintra e Mafra: O fascínio e a beleza da sua paisagem, a ruralidade e a simplicidade da sua gente, no terno olhar da poetiza popular Helena da Paixão, mas também na recolha de imagens de Manuel Ribeiro, num registo de video documental etnográfico (quase) histórico.

A capa e contracapa do CD são o resultado de um desafio lançado pela Casa das Cenas – Educação pela Arte à comunidade de fotógrafos fotogenicos.net para que retratassem Sintra e Mafra com inspiração no título do CD-DVD Moura-Lena. Resultaram 21 imagens, das quais foram escolhidas duas, da autoria de Helena Paixão e Diogo Ruas.

Porquê música Folk Regional?
Independentemente das éticas, das paixões e dos gostos de cada um, há realmente uma razão importante para "inventar" ou "reinventar" o nosso próprio folk. É que se os grupos portugueses querem ter algum impacto internacional, só o irão conseguir através da diferença cultural, da originalidade da sua atitude. Não é a tocar música francesa ou irlandesa ou mesmo rock que um grupo ou intérprete português se irá notabilizar lá fora. Não é por acaso que isso só acontece com grupos ou intérpretes que apostam na nossa singularidade muito particular, como Carlos Paredes, Madredeus ou Dulce Pontes, independentemente de gostarmos ou não destes projectos artísticos. O mesmo se aplica ao folk regional, que na língua portuguesa significa o que é do povo, o que é local. Talvez se houver um folk genuinamente português, terá mais probabilidades de fazer caminho aquém e além-mar. Claro que “a procissão ainda vai no adro”, mas esta é mais uma das razões para dedicar as nossas energias ao que é nosso, no bom sentido – no sentido da partilha, sem qualquer tipo de nacionalismo bacoco e patriótico.

Sobre Helena da Paixão
Natural do Barril, freguesia da Encarnação, concelho de Mafra, Helena da Paixão reside há mais de 30 anos no Concelho de Sintra. Sempre gostou de cantarolar e talvez por herança do pai, que já cantava de improviso, à desgarrada, um dia surgiram-lhe os versos, que naturalmente arrumou em poemas, já lá vão doze anos.
Apesar de não saber ler nem escrever, o processo criativo é rápido e surge quando algo a emociona ou alegra. “Parece que oiço uma voz que me dá força e me diz para continuar a fazer os poemas, porque os faço bem”, afirma com vivacidade no olhar. “São aqueles dons que vêm ter directamente com a pessoa”, remata.
O sonho de ver os poemas publicados em livro concretizou-se a convite da Casa das Cenas – Educação pela arte, em Abril de 2008. O livro, com o título Alegria da Paixão, veio juntar-se à Colecção Poetas de Trazer por Casa, cujo objectivo é dar voz a todos os poetas populares, de hoje e de sempre, do concelho de Sintra.
Helena da Paixão, “a brilhante saloia que tem na memória toda sua criação poética”, como a bem definiu a escritora e artista plástica, Isabel Almira Medina, fala do que lhe vai na alma. É uma poetisa repentista, que num impulso constrói mentalmente diversos versos e, ao seu jeito simples e natural, os entoa com entusiasmo.
Os seus poemas são habitados pelas lembranças e as vivências típicas de quem já tem 71 anos, mas que teimou em não parar no tempo. Às eloquentes exaltações ao concelho que a viu nascer juntam-se os elogios que sente por Sintra, a terra que a recebeu e que passou a ser a sua casa. A energia e autenticidade de Helena da Paixão são tão contagiantes que, nos últimos tempos, tem sido solicitada para iniciativas culturais onde se pensa, se faz e se diz poesia. O CD-DVD que agora se edita é a concretização do segundo sonho artístico, de quem, sem vaidade, afirma: “Sou aquilo que posso ser e faço as coisas com muito gosto”.

Sobre Jorge Pitacas
“Comecei a tocar bateria com cerca de cinco anos e aos sete já dava uns toques no piano”, por isso, “sou músico desde que me conheço”, afirma Jorge Pitacas. A fase autodidacta da infância terminou quando entrou para o instituto que o preparou para a cegueira anunciada, por motivos de doença. Aí, a par do braille, aprendeu um pouco de piano e, aos quinze anos, iniciou-se também na guitarra, embora a percussão seja a sua paixão.
Nascido em Lisboa, a 24 de Agosto de 1970, mas criado na Apelação, entre Camarate e Loures, Jorge veio parar a Sintra aos 18 anos, quando a irmã escolheu Morelena para viver. Aqui, começou a ir de viola para a escola, onde fez amigos que foram a ponte para o meio da música. Pouco depois, estava a trabalhar como pianista no Hotel Miramonte e a tocar um pouco por todos os bares de Sintra, sobretudo viola, e a cantar. Foi um período fértil para conhecer o panorama musical sintrense.
No final de 1993, foi convidado para ser músico num bar de um amigo, em São Julião. Aí conheceu o baixista Celso Valdez, com o qual desenvolveu o projecto In Dubis Causa, que lhe permitiu gravar o primeiro CD de originais da sua autoria e iniciar a fase de composição musical. Em estúdio, o dueto contou com a participação de grandes nomes da música portuguesa, como João Maló. No entanto, “todos eles estavam muito bem inseridos nos seus projectos e não foi possível materializar o In Dubis Causa ao vivo. A banda já devia estar formada antes”, comenta.
Passados quinze anos, o projecto da banda não foi esquecido e Jorge espera concretizá-lo ainda este ano, embora com um nome diferente e outros músicos. Entretanto, “vou sempre compondo e fazendo coisas em paralelo com pessoas que vou conhecendo. Fui-me tornando um indivíduo com várias valências no mundo da música”.
Foi nessa lógica que aceitou o convite de Jozé Sabugo, director artístico e produtor da Casa das Cenas – Educação pela Arte, para musicar a poesia da autoria de Helena da Paixão. Apesar de pertencerem a gerações diferentes, Jorge encarou como um desafio a tarefa de adaptar a linguagem muito própria da poetiza e repentista popular, para que lhe fosse possível criar cada trecho musical. Depois, foi o trabalho de preparar e instrumentar as músicas e levar Helena da Paixão a estúdio para gravar.
O resultado final agrada ao músico, sobretudo porque se sentiu bem em usar a criatividade musical para alguém concretizar a sua vontade. E admite: “A garra e a determinação da Helena em não se deixar parar, atendendo que é uma sexagenária, também me deram uma lição de vida”, porque “a vida é isto mesmo: Sonhar e tentar materializar sonhos”.

Sobre o Baile das Camélias
A tradição do Baile das Camélias remonta a 19 de Março de 1941, quando a comissão organizadora -- constituída por Augusta de Carvalho, Beatriz Silvestre, Henrique Lima Simões e Rodrigo dos Santos Soares --, decidiu “reunir a família da União Sintrense, naquele dia de S. José”, como refere a edição Nº366, de 23 de Março do mesmo ano, do Jornal de Sintra, numa “noite dedicada exclusivamente a essa tão linda e tão romântica flor”.
Maria Almira Medina, escritora, poetiza e artista plástica sobejamente conhecida no panorama cultural sintrense, esteve presente na Sociedade União Sintrense nessa primeira “Noite das Camélias” e deu-nos o seu imperdível testemunho:
“Na altura da II Guerra Mundial, eu conhecia os refugiados que estavam de passagem por Sintra e fui convidada a colaborar no primeiro Baile das Camélias, organizado num movimento de solidariedade para com eles, que estavam infelizes, sem tecto e futuro. As pessoas de Sintra receberam-nos com muita humanidade, compreensão e carinho. Fiz um poema, chamado «Camélias de Sintra», que declamei durante o recital no baile e cantei duas músicas americanas – «South American Joe» e «Marching Through Georgia». Lembro-me da casa cheia com as gentes de Sintra e os refugiados, que eram imensos! A sala estava toda enfeitada com flores, dispostas de uma maneira muito artística, como se fosse uma sucessão de lindos quadros. A serra quase ficou despojada de camélias para a sociedade ficar coberta com estas flores!”.

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